O que torna única uma performance?

Julgo que o leitor deste texto concordará comigo relativamente à asserção de que cada ser humano é único. E se a Música que criamos é um espelho direto e transparente daquilo que somos, então a mesma Música revelar-se-á autêntica quase implicitamente, e a performance, por sua vez, única. Portanto, o profundo conhecimento da nossa pessoa, intersetado com o posterior confronto diante do momento da criação da Arte, resumem-se a uma qualidade: honestidade.

Ouso constar que muitos dos intérpretes que vejo e ouço, no momento da performance, se cobrem de vários disfarces, de dissimulações protetoras provocadas pelo instinto de sobrevivência humano num contexto de tamanha adrenalina e ansiedade. Através do termo honestidade - e apesar do stress que um momento em palco implica –, pretendo evocar precisamente a imagem contrária: o despojar de todas essas máscaras, deixando a nu o nosso verdadeiro eu, que inevitavelmente se manifestará na obra que nos propomos criar. Porque se cada um de nós é único, a nossa interpretação será consecutivamente única. E o vínculo que torna real a segunda pela primeira premissa é necessariamente a honestidade, a transparência, e a ousadia de sermos nós mesmos. 

O segundo aspeto tem que ver com aquela que julgamos ser a nossa posição enquanto artista mediante um público. Com efeito, transmitiremos nós uma mensagem para um público, que por seu turno deduzirá dessa mesma forma de comunicação juízos de valor das mais variadas índoles? Tocaremos nós para o nosso próprio deleite ou, num patamar mais acima, para a nossa própria elevação?

De acordo com a minha singela (e quiçá limitada) visão (que se encontra em permanente construção e desconstrução de acordo com as experiências que coleto), não há distinção entre artista e público, no momento da performance. Nesse instante, somos todos partículas da mesma matéria. O músico estará, em momento algum, numa posição hierarquicamente superior à daqueles para quem toca. Artista e público são unidade, construindo um triângulo cujas duas forças duais convergem numa terceira ponta absolutamente perfeita – a Arte.

Aquilo que nos distingue, em relação a uma audiência, consiste na mera concentração de ferramentas e oportunidades que nos permitem entrar num contacto mais direto com a Música. Por “ferramentas”, entenda-se a alusão aos anos dedicados ao estudo e especialização no instrumento ou voz, às qualidades técnicas desenvolvidas, entre outros fatores de ordem concreta; por “oportunidades”, o conjunto de circunstâncias que nos guiou até ao momento da performance. Sob este ponto de vista, sim: retiramos vantagem em relação ao público. Todavia, isso não nos atribui, por inerência, uma condição superior ou isolada do mesmo.

A meu ver, a performance não se resume a uma ocasião de execução ou reprodução de uma peça musical. Não se reduz à apresentação pública de uma interpretação. Começa, com efeito, no instante em que se vive a interpretação. Emerge através da criação, da descoberta – sempre de mãos dadas com o ouvinte. Portanto, a partir do momento em que cada passo é calculado com o primordial objetivo de autossuperação, a Música e a performance morrem – ou perdem a sua singularidade, no mínimo. Porque a autossuperação não constitui um fim em si mesma, mas antes um meio para servir aquela que é a causa maior: a Arte.

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